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Presidente da CNA João Martins assegura que o agronegócio vai colher em 2020 a maior safra da história do Brasil

O presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), o baiano João Martins da Silva Junior, é um otimista sobre o papel do agronegócio para o Brasil. De acordo com ele, durante uma entrevista concedida ao jornalista soteropolitano Osvaldo Lyra, a pandemia do novo Coronavírus beneficiou de sobremaneira as exportações do agronegócio brasileiro. “Esse ano nós vamos colher a maior safra da história do Brasil”, disse João Martins, ao assegurar que é o agronegócio que está sustentando a economia do país. Segundo dados da CNA, no ano de 2019, 21,9% do PIB total do Brasil foi fruto do agronegócio. A estimativa é que esse número suba para 23,4% em 2020.

Que avaliação o senhor faz da pandemia e o impacto sobre o agronegócio do país?

Desde o dia 14 de março, o último dia que eu saí de Brasília, nós já tínhamos sinais claros de que a pandemia seria uma coisa que afetaria toda a humanidade. E aí, qual é a nossa preocupação? O mês de março, abril, maio e junho é o pico da nossa safra, principalmente de grãos e algodão. Então, nós tivemos que montar uma estratégia para que ela fosse escoada, grande parte dela é exportada, e mais do que isso, que não houvesse interrupção no fornecimento de alimentos à população brasileira. Esse foi o primeiro passo. 

Nós montamos com o Ministério da Infraestrutura uma estratégia na qual o transporte desse, não só para a alimentação da população, como o escoamento da safra até a exportação, que é feito, na sua quase maioria, pelo modal rodoviário. Então, nós fizemos por partes uma estratégia para que os caminhões pudessem rodar, os caminhoneiros tivessem sustentação ao longo da estrada, em termos de postos abertos para combustível, até para alimentação, porque nos primeiros dias foi um problema muito sério. Não tinha borracheiro aberto, não tinha refeitório aberto, não tinha posto aberto. Então, conseguimos com o Ministério da Infraestrutura montar essa estratégia e a exportação começou a fluir normalmente. 

O medo era prejudicar as exportações?

Sim. Esse ano nós vamos colher a maior safra da história do Brasil. Nós vamos passar de 250 milhões de toneladas de grãos, só de grãos. Por outro lado, a população também precisava se alimentar. No primeiro momento, falou-se no desabastecimento, que havia um “corre-corre” nos supermercados, mas nada daquilo era verdadeiro. Era apenas boato. Estávamos com um problema no abastecimento interno do hortifrutigranjeiro, porque são pequenos produtores, com produtos altamente perecíveis e eles não tinham como escoar a produção naquele momento. E aí, esse foi o grande problema inicial. E aí, nós começamos a montar estratégias que iam auxiliá-los, assim como o pessoal das flores, de floriculturas. Em resumo, nós conseguimos. Quando chegou no mês de maio, nós vimos que as coisas fluíam como antes. Então, a população continuou a ser abastecida, as nossas exportações estão batendo o recorde.

O Brasil na agricultura bateu todos os recordes de exportações, principalmente com a China. A China aumentou as importações, não sei se era para criar uma reserva estratégica, principalmente de grãos. Aumentaram as importações de grãos, as de ferro. Eu não sei qual foi a estratégia deles, mas sei que nós nos beneficiamos com isso. Mas o problema aí é que o dólar disparou, chegou a bater na casa dos R$6. No primeiro momento, a agropecuária brasileira ficou extremamente desfocada, porque aquilo ia ter um reflexo muito grande. Nós não sabíamos até que ponto esse valor do dólar seria passado para o preço do que nós estávamos exportando, porque se passasse, como passou grande parte, era benéfico para o produtor. Por outro lado, também tinha o reverso da moeda, nós importamos principalmente adubo de fertilizantes para nossa agricultura. A grande agricultura, a grande exportação, essa está fluindo bem. Tanto é que nós já estamos prevendo que o novo ano agrícola de 2020/2021 vai ser um ano no qual o produtor rural está acreditando, pois, o clima tem sido extremamente favorável, e nós vamos ter uma safra maior do que foi essa safra atual.

Qual tem sido a avaliação ds medidas que o governo federal está adotando para o agronegócio?

Veja bem, tivemos um encontro com a ministra da Agricultura, que é também produtora rural, e levamos através da CNA (Confederação Nacional da Agricultura) os pleitos de todos os produtores, dentre eles, a renegociação das dívidas, novos recursos, principalmente para os pequenos produtores. Então, todas as medidas que nós levamos para o governo foram acatadas, porque nós não levamos nada demais. Mostramos que o país era um grande produtor de alimentos e não tinha nenhum cabimento haver interrupção, haver colapso do abastecimento interno. Então, o governo entendeu bem isso e foi até além. Nós estamos terminando agora a colheita de uma safra, nós temos de preparar já, porque as regiões têm climas diferentes. Então, enquanto no Mato Grosso a safra de grãos e de algodão já foi colhida há mais tempo, aqui na Bahia estamos terminando agora a safra de grãos e vamos começar a colher a de algodão. Então, como os climas são desiguais, geralmente o mês de maio e o mês de junho, nós separamos uma proposta ao governo de um novo Plano de Safra.

E o que é esse Plano de Safra? O governo precisa financiar o plantio. Muita gente diz ah, subsídio. Isso é mentira. O plantio, a safra que é plantada no Brasil, o governo entra simplesmente com 30% do financiamento. 1/3 é financiamento do governo, 1/3 é financiamento dos produtores, 1/3 das empresas que fornecem adubos, fertilizantes, e até as cooperativas também, adiantamento aos produtores. Então, nós tínhamos de preparar esse plano, porque a agricultura não pode parar. Esse Plano Safra nós já entregamos ao governo agora no início de junho. A CNA já entregou a proposta, mostrando ao governo que não podia mais continuar. Isso é outra coisa. Como é que financiamos hoje com Selic em 3%, está previsto que vamos chegar ao final do ano a Selic vai para 2,75%, o governo quer fazer com que o produtor pague juros de 8%, quer dizer, mais do que quase três vezes do que vai ser a Selic. Então, nós reivindicamos ao governo, um corte horizontal de 25% de todos os juros. Os juros do grande, os juros do médio e os juros do pequeno.

A verdade é o seguinte: apesar da agricultura brasileira estar ajudando o país, é uma luta muito difícil, porque muita gente não entende que a agricultura é uma área em que as coisas têm que ser feitas naquele momento certo. É independente de uma fábrica, que você desliga a energia e para a máquina. Aí, daqui a dois meses, você diz “vamos começar novamente a funcionar” e liga novamente. A agricultura não. A plantação tem que ser naquele tempo certo, a colheita tem que ser no tempo certo. A agricultura tudo tem que ser tempestivamente justo. Então, eu não posso dizer que o governo não tenha atendido às reivindicações dos produtores, porque tem atendido. Então, nós não podemos dizer que o Brasil parou, pelo menos no nosso setor não parou.

Muito se fala num período de recessão no pós-pandemia. As turbulências políticas podem dificultar esse cenário de retomada e impactar também sobre o agronegócio?

Veja bem, eu não sei se você tem essa noção. O agronegócio correu no Brasil nesses últimos 20 anos solto. Não foi governo que fez esse tipo de agricultura que o Brasil tem hoje. Os produtores rurais não ficaram presos a dinheiro de governo. Esse financiamento do Plano Safra é um financiamento que você recebe dinheiro para adiantar e com seis meses é pago. Então, não existe a gente ficar dependente de governo. Esse tumulto político logicamente afeta todos os seguimentos, não é só a indústria, o comércio e a sociedade. Essa pandemia veio como se fosse uma bomba atômica na humanidade. Além disso, nós estamos sofrendo esses desencontros políticos, esses desencontros dessas lideranças, que nesse momento deviam estar conduzindo toda a nação para que a gente sofresse o menos possível nessa pandemia. Então, não vou dizer a você que nós não estamos sendo afetados, nós estamos sendo. Como eu disse, como nós corremos em raia paralela à indústria, ao comércio.

Agora, em minha avaliação, o comércio é o que mais está sofrendo e vai sofrer, porque a recuperação do comércio, dos serviços, ela vai ser uma muito gradual. Eu vi outro dia uma autoridade, se não me engano, na Inglaterra, dizer que as coisas começarão a voltar, ou pelo menos, enxergar normalidade daqui a três anos. Quem é que vai poder ter uma loja, esperar que as compras fluam devagarzinho, porque o cara na loja, no serviço, na indústria tem os custos fixos. Nossas produções de aves, de suínos, tudo está fluindo fantasticamente bem, essa é a diferença. Agora, o comércio está sendo esbagaçado. Então, eu acho que se nós tivéssemos um equilíbrio dessas autoridades nos três poderes, não só o Executivo, o Legislativo e o Judiciário tivessem mais equilíbrio, esse momento era para todo mundo estar junto, para conseguir tirar esse Brasil o mais rápido possível desse atoleiro. Aí a gente retomaria com mais facilidade. Mas, infelizmente, esse desencontro, essa desarmonia, isso não é bom para ninguém.

A pandemia impactou os mercados de todo o mundo. Isso favorece de alguma forma o agronegócio brasileiro?

Bom, impactou o mercado de todo o mundo, mas o que é que acontece no mundo? O maior produtor de alimento no mundo é a China, mas eles têm um bilhão e duzentas milhões de pessoas para comer. Então, o que eles produzem, eles não têm o suficiente para alimentar a própria população, então, eles precisam importar alimento. Como precisam importar, nós, que somos produtores de alimento, nos beneficiamos. O Brasil, além de alimentar os 210 milhões de brasileiros, ainda alimenta hoje mais de um bilhão de pessoas no mundo. O que nós jogamos fora do Brasil para alguns é o equivalente a alimentar um bilhão de pessoas. Nós exportamos hoje para mais de 170 países. Nós exportamos desde os países árabes, os países asiáticos, quanto a China, a Malásia, Indonésia, Vietnã. O Vietnã nunca importou carne da gente, está importando agora carne de frango. O Egito importava da gente, agora está importando mais do que nunca, porque os nossos concorrentes, tipo a Austrália, que é um grande produtor de carne, mas não é igual ao Brasil em termos de volume. Produtos lácteos: era dificílimo pensar que o Brasil pudesse vender produtos lácteos lá fora. “Ah, o Brasil não pode vender, o Brasil não tem competitividade com a Nova Zelândia, com a Austrália”. É balela!

Ano passado nós levamos uma comissão de industriais do leite lá para a China credenciando mercado. Então, hoje o Brasil é exportador de produtos lácteos para a China, principalmente leite em pó e queijo e está mais do que isso. Indonésia nós também estamos botando. O que acontece no mundo é que a população continua a crescer. Para você ter uma ideia, nós devemos ter, até 2040 mais ou menos, um aumento populacional de alguma coisa de dois bilhões de pessoas a mais no mundo, ou seja, 10 vezes a população do Brasil hoje. O que é que vai acontecer? Quem vai alimentar? Então, a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) fez um mapeamento do mundo, quem produz alimento, e disse que o Brasil é o único que tem responsabilidade e capacidade de alimentar alguma coisa perto de 40% desses dois bilhões. Então, o que é que acontece, nós somos tão otimistas, não é por causa agora da pandemia, que nós já projetamos que até 2030, se hoje nós produzimos 250 milhões de toneladas de grãos, em 2030 nós vamos produzir mais de 700 milhões de toneladas. O mercado interno não vai absorver isso. Então, nós precisamos que a infraestrutura viabilize isso.

Para você ter uma ideia, quando teve aquela seca uns dois, três anos atrás, que nós pensávamos em pegar milho lá do Paraná para botar no Ceará, o custo da cabotagem era duas vezes mais, ou até três vezes mais, do que se a gente pegasse o milho da Argentina para levar para o Ceará, veja só. O milho ia ser muito mais caro. Então, o que é que nós temos batido na tecla: o Brasil precisa criar uma infraestrutura para facilitar e viabilizar a competitividade. O ministro da Infraestrutura criou esse programa Pau Brasil, que é o investimento de R$ 44 bilhões até 2023, onde esse investimento passará a ser prioridade. Imagina você se a FIOL (Ferrovia de Integração Oeste-Leste) realmente se concretizar, saindo de São Desidério ao Porto de Ilhéus?

A crise diplomática gerada recentemente pelas desavenças entre o presidente Bolsonaro e o governo chinês é benéfica ou prejudicial para o agronegócio brasileiro?

Isso aí foi mais, vamos dizer assim, cena que verdadeiramente ocorreu. Não existe crise entre o Brasil e a China. Ao contrário, a relação com a China é uma relação extra governo. Os produtores, a CNA mesmo, nós temos hoje um escritório em Xangai com funcionário lá, que é uma chinesa que fala muito bem português. Por que nós abrimos um escritório lá? Para não ficarmos dependentes de governo para governo levar os produtores. O Brasil não produz só soja, carne, milho e ferro, não. Os médios e pequenos produtores produzem uma variedade imensa. Nós somos grandes produtores de frutas, o que é que nós exportamos de fruta, esse ano talvez a gente bata o recorde de um milhão, mas nós temos capacidade de exportar 10 milhões de dólares de fruta. Quantos produtos de pequenos produtores. Então, nós montamos esse escritório lá e montamos no Brasil quatro escritórios. Um é aqui na Bahia, na sede da Federação da Agricultura da Bahia, onde nós, juntamente ao governo, vamos preparar os produtores.

Já estava certo uma comitiva para ir para a China agora, China, Indonésia, porque nós temos de ser como os americanos são, não ficar sentados aguardando que o governo faça tudo. Nós estamos em um país em que tem que se vestir calça comprida, não ficar a vida toda vestindo calça curta e dizer que só anda se alguém der a mão para ele andar. Então, o que eu imagino é que a gente tem que contribuir com isso e é isso que a gente está fazendo. Já temos produtores preparados em diversas atividades. Para você ter uma ideia, até pimenta do reino temos da Bahia, daquela região de Ituberá. São cafés especiais, quem produz café especiais são grandes produtores? Não, são pequenos produtores. Café especial lá fora é 10, 15, até 20 vezes o valor da saca do café normal. A região de Piatã, na Bahia, é uma região altamente produtora de cafés especiais, tudo pequeno produtor. Então, eu acho que precisa desmistificar que a agropecuária é dos grandes. (Por Osvaldo Lyra/A Tarde)

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