Morre o jornalista Ramiro Guedes aos 73 anos, imortal da Cadeira nº 7 da Academia Teixeirense de Letras

Da redação TH

Morreu no início da manhã desta sexta-feira, 25 de junho, o letrista, jornalista, radialista e poeta Ramiro Guedes, imortal titular da Cadeira nº 07 da ATL – Academia Teixeirense de Letras. Ele estava internado numa UTI – Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Municipal de Teixeira de Freitas, desde o dia 25 de maio, com complicações de saúde e teve que ser entubado.No domingo, dia 23 de maio, começou a se sentir mal com diarreia e vômito, ao passar pelo médico, estava com a saturação baixa e na tomografia demonstrou que o pulmão estava 75% comprometido e os rins parados, e com água na pleura, não estava conseguindo urinar.

Ele possuía alguns problemas de saúde, notadamente a diabetes, que inclusive no início do ano se viu obrigado a amputar o dedão do pé direito. Também sentindo falta de ar, ele foi levado ao hospital onde fez o teste para a Covid-19 e deu negativo. Com todo o quadro de enfermidade, ele foi internado e entubado. Ele havia aparentado uma melhora nos últimos 5 dias, mas na manhã de hoje (25), exatos 30 dias após sua internação, veio a confirmação do seu falecimento.

O velório de Ramiro Guedes acontece no Plenário Francistônio Alves Pinto da Câmara Municipal de Teixeira de Freitas e o sepultado está marcado para as 16h horas desta sexta-feira (25/06) no cemitério Jardim da Saudade no bairro Jardim Liberdade, na zona oeste da cidade. Cumprido um desejo do próprio Ramiro, o seu corpo será sepultado na mesma jazida onde está o seu filho Luciano Guedes, falecido em 1997.

“Perdemos hoje um dos nossos melhores quadros na literatura e ganhou a eternidade divina. Ramiro Guedes foi um amigo, um orientador, um professor e se torna hoje um efetivo imortal. Um homemde Fé e Razão, com uma história de honradez, de trabalho em defesa da cultura, ponderado, tinha horror à crença ideológica cega e também à arrogância da razão. Defendeu suas posições com ética e elevado espírito público. Homem de princípios, não desdenhava das orientações alheias, que honrou o exercício da atividade jornalística e dignificou a literatura. Construtivo na vida pública, derrubava barreiras, não construía muros que impedissem a boa conversa, fez do rádio a arte da construção ao abrir infinitas portas para o diálogo e o ordenamento institucional.Nossas condolências e solidariedade à família e aos amigos. Que possam encontrar conforto neste momento de dor. A ATL decreta luto oficial profundo pela partida para a imortalidade do nosso confrade Ramiro Guedes da Luz”, publicou o escritor e jornalista Athylla Borborema, presidente da Academia Teixeirense de Letras.

Ramiro Guedes

O jornalista e radialista Ramiro Guedes da Luz foi um importante escriba jornalístico e apresentador de radiojornalismo de grande sucesso no nordeste de Minas Gerais e no extremo sul da Bahia, colunista de jornais e de portais de notícias, apresentador do mais importante programa cultural que já existiu nesta mesorregião de tríplice fronteira dos estados da Bahia, Espírito Santo e Minas Gerais, o“Almoço à Brasileira” no ar desde 12 de maio de 1990 pela Rádio Caraípe FM, datado aniversário dos5 anos de emancipação político administrativa de Teixeira de Freitas.

Ramiro Guedes nasceu na casa de número 07, da Rua das Flores, em Teófilo Otoni (MG), em 12 de março 1948. Ele é o terceiro de um grupo de 8 irmãos. Se formou em Letras em uma extensão da Universidade Católica na cidade de Pedro Leopoldo (MG). Com 50 anos dedicados ao radiojornalismo, à paixão pela literatura e ao bom gosto pela música popular brasileira, Ramiro Guedes começou sua carreira aos 20 anos de idade na gigante Rádio Teófilo-Otoni 910 AM e seguiu carreira na tradicional Rádio Imigrantes 100,9 FM, na sua terra natal, Teófilo-Otoni, capital do nordeste mineiro.Ramiro Guedes chegou a Teixeira de Freitas no dia do aniversário dos 5 anos de emancipação da cidade, em 09 de maio em 1990.

Recomendado pelo então presidente da Associação Comercial e Empresarial de Teófilo Otoni, SélemHandele, chegou à cidade a convite do então prefeito da época, o saudoso FrancistônioAlvesPinto, para trabalhar na Rádio CaraípeFM e dirigir as demais emissoras da família – Rádio Difusora AM, Rádio Jornal AM de Itapetinga, Rádio Tropical FM de Medeiros Neto e a Rádio Porto Brasil 88,7 FM de Porto Seguro. Posteriormente, viriam também as rádios Alvorada 990 AM e a Cidade 87,9 FM de Teixeira e a Rádio Três Corações 97,5 FM de Itabatã, em Mucuri. Na mesma semana que chegou à cidade, estreou no sábado seguinte, a sua marca principal, o programa “Almoço à Brasileira” pela Rádio Caraípe FM, que permaneceu por 31 anos na emissora.

Quando diretor das emissoras, ele buscou valorizar os colegas e pagava um dos melhores salários do Estado aos seus profissionais. Ele também teve que brigar para fazer valer direitos, isso porque muitas rádios naquela época não gostavam de pagar funcionários e, quando pagavam, não eram bem remunerados.Assim se profissionalizava o jornalismo radiofônico na região. Ramiro Guedes também teve passagens importantes por outras emissoras de rádio do extremo sul da Bahia, dirigindo, editando, ancorando o jornalístico do meio-dia e apresentando o Almoço à Brasileira. Foi assim na Rádio Porto Brasil 88,7 FM de Porto Seguro, na Rádio Abrolhos 104,5 FM de Mucuri, na Rádio Sucesso 104,9 FM e na Rádio Câmara 90,9 FM de Teixeira de Freitas.

Ramiro Guedes dizia que “O jornalismo de Teixeira é um jornalismo diferente, é o que ele chamaria de jornalismo de resultados”. Sobre o início da imprensa na região extremo sul,ele dizia que o jornalismo naquela ocasião “era bem mais agressivo, no sentido dos fatos”.Em 21 de abril de 1991 aconteceu algo que marcou a vida de todos os profissionais de imprensa do extremo sul da Bahia – o caso Ivan Rocha, sequestrado e desaparecido até hoje. Na ocasião o Ramiro Guedes foi o principal combatente do caso, todos os dias cobrava justiça e revelava denúncias que pudessem levar a polícia a chegar aos mandantes, executores ou a encontrar o cadáver do jornalista Ivan dos Santos Rocha, de 32 anos na época. Mais uma prova de fogo para Ramiro Guedesfoi a eleição para prefeito em 1992 entre os candidatos Temóteo Brito e Ubaldino Júnior, marcada por um clima terrível, de muita agressividade, ameaça de morte e uma série de outrosacontecimentos.

No mandato 2013/2016, Ramiro Guedes ocupou a titularidade da Secretaria Municipal de Cultura de Teixeira de Freitas, uma pasta que desenvolveu com destaque na sua gestão, porque era um ícone no assunto cultura, pois lutou a vida inteira pela valorização dos artistas da terra. Como ele próprio dizia, “O rosto cultural de Teixeira é a diversidade e, ao mesmo tempo, é uma cidade a que falta tudo, por exemplo, livrarias, teatro”. Era um apaixonado pelo Espaço Cultural da Paz dos amigos “Zé da Baiana” e “Baiana do Zé” no bairro São Lourenço.

No dia 24 de maio de 2018, no Auditório Francistônio Alves Pinto da Câmara Municipal de Teixeira de Freitas, alunos da Universidade Federal do Sul da Bahia e o movimento cultural Coletivo das Artes Motirô, movimento gestado por artistas de vários segmentos culturais da cidade, homenagearam o jornalista, radialista e imortal Ramiro Guedes, com o lançamento dos pontos de leitura, cuja biblioteca itinerante ganhou o seu nome e a sua caricatura no painel do projeto, além da plotagem de um belíssimo poema declamado pela poetisa Cynara Novaes. No dia 8 de junho de 2018, o então vereador Marcilio Goulart também homenageou Ramiro Guedes com uma Moção de Congratulação pela passagem dos seus 70 anos de vida e pelo seu engajamento nas causas culturais, entre elas a apresentação do programa Almoço à Brasileira, ofertando o melhor da MPB, música regional e valorizando os artistas locais.

Homem inteligente, um devorador de livros de qualidade, com um vocabulário farto, de uma cultura extremamente aguçada e um profissional de imprensa com o melhor dos improvisos que já se conheceu no rádio brasileiro. Exigente com ele mesmo, um escravo das suas próprias exigências, escreveu mais de 20 livros, mas se recusou a vida inteira a publicar um dos seus livros, dizia que tinha vergonha de decepcionar seus leitores, modéstia pura. Em 14 de março de 2016, compôs o grupo dos intelectuais que fundou a ATL – Academia Teixeirense de Letras, sendo ele empossado no dia 4 de junho de 2016 como titular da Cadeia nº 07 da instituição literocultural, na única vaga existente na instituição dedicada a uma pessoa com notório saber literário.

O seu programa “Almoço à Brasileira” marcou os fins de semana da cidade por 31 anos. Muitas vezes, saía dos estúdios do rádio e ia até o público, em festas, feijoadas, exposições e projetos que estivessem acontecendo. O Almoço à Brasileira nasceu em Teófilo Otoni, na Rádio Imigrantes FM, mas com estrutura diferente e em Teixeira de Freitas foi aperfeiçoado. O programa nasceu de uma ideia do primeiro programa do gênero que Ramiro Guedes da Luz apresentava no início da sua carreira na Rádio Teófilo-Otoni AM das 20h à Meia-Noite, chamado “Da Luz e Da MPB”, que foi o embrião do “Almoço à Brasileira”. Era um programa com informação, música e valorização da cultura, sempre levando poetas, escritores em geral, ativistas, cantores e muitos outros artistas.

Ramiro Guedes já fez muitos programas nas universidades e em cidades vizinhas. Levou ao programa ao vivo atrações nacionais como Renato Teixeira e Xangai no aniversário de 05 e de 10 anos do programa eOswaldo Montenegro nos 15 anos do Almoço à Brasileira. Ramiro Guedes dizia que a parte mais importante da sua vida profissional era o “Almoço à Brasileira”. Para ele, Teixeira era o seu povo, a sua gente humilde. Disse no rádio, um dia, que ele passava nas ruas e percebia a vida dos cidadãos e enxergava na cidade a poesia de Vinicius de Morais retratada liricamente: “São casas simples com cadeiras na calçada e na fachada escrita em cima que é um lar, pelas janelas flores tristes e baldias como alegria que não tem onde encostar”.

Ramiro Guedes nunca deixou de apresentar o “Almoço à Brasileira”. Recentemente havia dito que “Nunca deixou de fazer o programa. As únicas vezes que deixou de apresentá-lo foram em dois momentos: no casamento do deputado federalUlduricoPinto (seu então patrão), que viajou para participar da cerimônia e deixou o programa gravado; e, no falecimento do seu filho, que faleceu numa quinta-feira e, no sábado seguinte, não fez o programa. O primeiro casamento de Ramiro Guedes foi com Raquel da Imaculada Conceição com quem viveu sete anos e teve Juan Pablo, Tarsila e Luciano (in memoriam). Depois se casou com Marisa de Fátima Goulart quem deixou viúva após 35 anos de uma linda história de amor, com quem teve sua princesa Maíra Guedes, a fofíssima e belíssima “menina da ladeira” símbolo maior da sua poesia.

O jornalista Ramiro Guedes definia a sua relação com a cidade em uma única frase: “Eu sou apaixonado por Teixeira de Freitas”.Para ele, a história de quem mora em Teixeira se confunde com a própria Teixeira, “pois Teixeira é uma cidade que prende a gente, pelos encantos e desencantos”, dizia o radialista, que ainda falava que não se arrependia de ter migrado para a cidade.Ramiro teve um filho autista (Luciano) que faleceu cedo, em 1997. “Uma cidade onde você tem um filho enterrado se torna aquele pedaço que Chico Buarque define como “saudade é o revés de um parto, saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”, como declamou uma vez no seu tradicional programa de rádio “Almoço à Brasileira”.

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